*** Por Luís Carvalho, da Agência Inforpress ***

Cidade da Praia, 18 Mar (Inforpress) - “Economia Social e Solidária em Cabo Verde” é o título da primeira obra de Jacinto Santos, uma homenagem aos pioneiros do cooperativismo no arquipélago, que já tem na forja um trabalho sobre a experiência do municipalismo cabo-verdiano.

Em entrevista à Inforpress, Jacinto Santos não esconde a sua “satisfação” pelo facto de ter dado à estampa um livro, cujo conteúdo está ligado à trajectória da vida social e  profissional dele, desde em 1975, como balconista de uma das lojas da antiga Central  das Cooperativas de Cabo Verde, passando por diversas funções como de animador, responsável pelo Departamento de Educação e Promoção Cooperativa e coordenador dos Centros  Regionais de Promoção  e Desenvolvimento Cooperativo até assumir o cargo  de Presidente do instituto Nacional das Cooperativas de Cabo Verde (INC).

Para o cineasta e escritor Leão Lopes, um dos apresentadores do livro no dia 23, na Universidade Jean Piaget, está-se diante de um “trabalho de investigação inédito em Cabo Verde”.

Instado por que razão este seu primeiro livro, que compara a um primeiro filho, aborda questões relacionadas com a economia social, Jacinto Santos explica que ao longo dos anos ganhou uma “convicção profunda” de que o modelo do desenvolvimento social e de Cabo Verde tem que incorporar outra forma de fazer a economia, de produzir, distribuir e consumir.

“Está provado que o Estado, sozinho, não pode resolver os problemas de desenvolvimento de um país, nem promover o bem-estar geral, o mercado, sozinho, não pode, e, também, a economia social e solidária, sozinha, não podem”, afirmou.

Segundo ele, as dificuldades do país resolvem-se numa interação entre os três sectores, ou seja, o público, com a missão de garantir a coesão social e a redistribuição; o privado virado para o mercado e para o lucro; e a sociedade civil organizada virada para uma economia feita com base nos princípios da solidariedade e reciprocidade e gestão democrática das suas organizações e empreendimentos.

Segundo o autor, o livro está em “sintonia perfeita” com aquilo que é consenso global de como a economia tem que ser “reinventada” para ser colocada ao serviço social.

“Ao longo da história, os cabo-verdianos têm sabido produzir formas alternativas de contornar problemas sociais e económicos, onde o Estado não chega e o privado lucrativo não tem interesse em lá estar”, indicou o autor da “Economia Social e Solidária”, desejando que a obra “contribua” para a construção de um “modelo social de desenvolvimento endógeno”.

Seguindo a lógica do que vem sugerindo o sociólogo cabo-verdiano Cláudio Furtado, afirma, está se num processo de construção de um “pensamento social cabo-verdiano”.

“Um pensamento social cabo-verdiano leva-nos a refletir a nossa prática colectiva e daí tirar elementos que possam contribuir na modelação das nossas políticas públicas do ponto de vista económico, social, cultural e ambiental”, precisou.

Em termos de impacto do livro na sociedade, espera que dê uma “maior visibilidade” à economia social e solidária como “ferramenta” que o cabo-verdiano, querendo, “pode utilizar no processo do reforço da sua cidadania, de participação cívica, mas também como ferramenta de acesso ao rendimento e emprego numa dinâmica de ascensão social”.

Para Jacinto Santos, hoje, a economia social não é vista como uma “economia de pobres para os pobres”, mas sim uma “ferramenta que todos os segmentos sociais, querendo, podem utilizar para participar das transformações económicas e sociais”.

Uma vez que a obra tem muitas coisas de orientações práticas, nomeadamente como gerir uma associação ou uma ONG, este documento, de acordo com o seu autor, “poderá ser uma ferramenta para os dirigentes e líderes associativos”.

“Poderá ser, também, um contributo para o Governo introduzir a economia social e solidária, de uma forma mais sistematizada, em políticas públicas”, enfatizou ainda um dos pioneiros do cooperativismo em Cabo Verde.

Lembra que o actual Governo se propõe desenvolver um “amplo programa de desenvolvimento da economia social e solidária” e, por isso, o livro surge em “boa hora”, uma vez que permite ao executivo, caso esteja interessado, utilizar algumas orientações e propostas para, de facto, “criar uma política pública” em relação à economia social e solidária.

“Um dos objectivos em relação aos quais Cabo Verde também se engajou é a promoção da transição do sector informal para o formal e desenvolvimento do trabalho decente”, comentou, para depois referir que muitas práticas do sector informal têm elementos que caracterizam as entidades da economia social e solidária, nomeadamente a solidariedade e a reciprocidade.

Na sua perspectiva, a economia social no país tem uma “especificidade histórica” em relação àquela que surgiu na europa no início do século XIX, no contexto da revolução industrial.

Este livro é o resultado de recolhas feitas no arquivo pessoal do autor, sobre matérias relacionadas com a economia social e solidária, assim como de muitas participações em conferência e seminários internacionais, além de leituras sobre a evolução dos conceitos e muita vivência prática.

“Um belo dia passei este meu ‘arsenal’ à minha amiga Arminda Barros que, depois de o analisar, me propôs para transformá-lo em livro”, conta a história como surgiu a ideia que foi amadurecendo e, até que um belo dia, sem se lembrar da data, começou a trabalhar de forma “intensa” o formato do livro.

Quando se lhe pergunta se sente realizado, a resposta é esta: “Estive a dizer à Miluci (esposa) que a sensação é como quando nasceu o nosso primeiro filho. É uma sensação com muita emoção”.

Não tem dúvidas que este seu primeiro livro é, também, uma contribuição para o resgate de uma parte da história de Cabo Verde que, por razões óbvias, “não foi bem tratada”, mas constitui um elemento “intrínseco do processo social cabo-verdiano”.

“É incontornável abordar a construção do Estado moderno de Cabo Verde sem se falar da primeira experiência da economia social institucionalizada, que são as cooperativas”, acentua Jacinto Santos, que vai adiantando que gostaria que o acto de lançamento da sua obra fosse um “encontro de gerações” e de todos aqueles que o influenciaram na sua trajectória profissional e intelectual.

Em termos de projectos futuros, prevê trabalhar, de forma mais concentrada, a problemática da sustentabilidade das organizações de fins não lucrativos no desenvolvimento, além de compilar todas as suas intervenções num documento único.

“Se tiver forças quero escrever sobre a experiência maravilhosa do municipalismo cabo-verdiano nas suas diversas dimensões, erros e insuficiências, mas com ganhos extraordinários em termos do que temos hoje no concernente ao nível do indicador social e desenvolvimento de proximidade e territorialidade”, concluiu.

Jacinto Abreu dos Santos é titular do Diploma de Altos Estudos em Práticas Sociais (DAEPS), com menção Diploma de Estudos Aprofundados (DEA), pela Universidade de Lyon 2. É técnico em Desenvolvimento Cooperativo, com especialização em Organização e Gestão das Cooperativas Agrícolas, pelo Instituto Pan-africano de Formação Cooperativa, hoje Universidade Africana para o Desenvolvimento Cooperativo (UADC).

Em termos políticos, participou activamente nas campanhas de luta pela independência de Cabo Verde, tendo militado nas fileiras do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), de 1975 a 1976. A partir de 1989, participa no processo político que culminou com a criação do Movimento para a Democracia (MpD), tendo sido eleito deputado nas primeiras eleições legislativas plurais a 13 de Janeiro de 1991. A 15 de Dezembro de 1991 tornou-se no primeiro presidente da Câmara Municipal da Praia eleito.

LC/CP

Inforpress/Fim

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